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Editado por Harlequin Ibérica.

Uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

Núñez de Balboa, 56

28001 Madrid

 

© 2008 Ally Blake

© 2015 Harlequin Ibérica, uma divisão de HarperCollins Ibérica, S.A.

A noiva do chefe, n.º 1156 - Julho 2015

Título original: Hired: the Boss’s Bride

Publicado originalmente por Mills & Boon®, Ltd., Londres.

Publicado em português em 2009

 

Reservados todos os direitos de acordo com a legislação em vigor, incluindo os de reprodução, total ou parcial.

Esta edição foi publicada com a autorização de Harlequin Books S.A.

Esta é uma obra de ficção. Nomes, carateres, lugares e situações são produto da imaginação do autor ou são utilizados ficticiamente, e qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, estabelecimentos de negócios (comerciais), feitos ou situações são pura coincidência.

® Harlequin, Bianca e logótipo Harlequin são marcas registadas propriedades de Harlequin Enterprises Limited.

® e ™ são marcas registadas por Harlequin Enterprises Limited e suas filiais, utilizadas com licença.

As marcas em que aparece ® estão registadas na Oficina Española de Patentes y Marcas e noutros países.

Imagem de portada utilizada com a permissão de Harlequin Enterprises Limited. Todos os direitos estão reservados.

 

I.S.B.N.: 978-84-687-7161-8

 

Conversão ebook: MT Color & Diseño, S. L.

Sumário

 

Página de título

Créditos

Sumário

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

Capítulo 7

Capítulo 8

Capítulo 9

Capítulo 10

Capítulo 11

Se gostou deste livro…

Capítulo 1

 

Quando Veronica Bing era criança, o seu maior sonho na vida era ter os olhos azuis e o cabelo loiro.

Uma longa cabeleira loira até à cintura e o tipo de olhos azuis que fazia com que uma rapariga levasse sempre a sua avante. E ser uma princesa de conto de fadas com asas. E usar um aparelho nos dentes e ter uns pais divorciados, como quase todas as crianças da escola. Oh, e também queria um carro desportivo cor-de-rosa elegante.

Também não era pedir muito, pois não?

Em vez disso, o seu cabelo cresceu grosso, ondulado e escuro. Quando, ainda em adolescente, realizou o seu sonho de ser loira, deu-se conta de que parecia um bolo de frutas e decidiu recuperar o seu moreno natural. Quanto aos seus olhos, tornaram-se castanho-escuros pouco depois do seu nascimento e teve de procurar outros modos de levar a sua avante.

As asas nunca apareceram. De facto, não demorou a descobrir que era alérgica a voar… se as náuseas, a transpiração das palmas das mãos e a dificuldade em respirar pudessem qualificar-se como uma alergia. Curiosamente, as mangas, os damascos e os homens morenos e altos que a viam como resposta a todos os seus sonhos produziam-lhe o mesmo efeito. E isso devia-se a continuar sem o seu príncipe encantado, de maneira que o seu sonho de se transformar numa princesa também não se cumpriu.

Infelizmente, os seus dentes tinham crescido espectacularmente bem sem a ajuda de nenhum aparelho. E como fora um acidente feliz, uma filha tardia de Don e Phyllis Bing, que já tinham quase cinquenta anos quando a tinham tido e então já estavam casados há trinta anos, os seus pais nunca se tinham divorciado. Em vez disso, o seu pai morreu de um ataque de coração enquanto ela ainda estava no liceu e a sua mãe demorou o seu tempo a morrer de tristeza. Embora os médicos tivessem garantido que sofria de Alzheimer, Veronica deixara os seus estudos universitários incipientes para cuidar da sua mãe e pudera confirmar que não era verdade.

E, quanto ao seu carro desportivo cor-de-rosa elegante… tinha-o conseguido! Não era mau ter conseguido, pelo menos, um dos seus sonhos!

Naquele momento, circulava pela zona leste de Melbourne no seu Corvette muito elegante, muito cor-de-rosa e muito caro. Reduziu a velocidade, subiu os óculos de sol até à testa e certificou-se de que estava no lugar certo antes de virar para High Street, em Armadale.

Ia a dois quilómetros por hora atrás de um eléctrico, passando diante de fachadas históricas, lojas de antiguidades, lojas de roupa elegantes e galerias de arte amontoadas umas ao lado das outras ao longo da rua elegante ladeada de carvalhos. Havia muitos jipes modernos estacionados junto de carros alemães de luxo e as pessoas que entravam e saíam das lojas pareciam fazê-lo depois de terem andado antes às compras em Milão.

– Já não está na Costa Dourada, menina Bing – disse Veronica, em voz alta, antes de voltar a pôr os óculos.

O eléctrico parou e o Corvette fez o mesmo. Veronica encostou a nuca no apoio do banco e contemplou o céu azul brilhante. Respirou fundo e permitiu que os cheiros e os sons de Melbourne, a cidade onde nascera, regressassem a ela seis anos depois. Perguntou-se como a receberia: de braços abertos ou virando a cabeça, com expressão depreciativa?

Esperava que de braços abertos, porque o emprego para o qual ia a uma entrevista, leiloeira para uma conhecida galeria de arte, parecia-lhe perfeito. Era temporário, imediato e implicava trabalhar com uma velha amiga que não via há séculos. E, sobretudo, estava muito longe do seu antigo trabalho, na outra ponta do país, e, portanto, muito longe do seu antigo chefe.

A lembrança da sua fuga precipitada, apenas com uma mala e o seu carro, e da mensagem exultante de demissão que deixara no atendedor de chamadas de Geoffrey, fez com que a sua respiração se tornasse um pouco trémula. Mas não porque estivesse preocupada, mas porque estava livre.

O que interessava que não tivesse emprego, nem casa? O que interessava se aquela oportunidade de emprego que Kristin tinha mencionado casualmente ao telefone na semana anterior fosse a única perspectiva no seu horizonte? O que interessava que apenas faltassem alguns dias para que chegasse a próxima mensalidade do seu carro e que a sua conta no banco fosse irrisória?

Viu-se ao espelho retrovisor para confirmar o estado da sua maquilhagem.

– Nada de pressão – disse e um sorriso irónico curvou os seus lábios.

O eléctrico começou a andar. Veronica viu a sua oportunidade de o ultrapassar enquanto o veículo pesado adquiria velocidade e aproveitou-a. Alguns segundos depois, parava o seu carro diante da galeria de antiguidades Hanover.

 

 

Mitch Hanover caminhava, inquieto, atrás da grande secretária da sala de recepção da galeria Hanover, o negócio de antiguidades de que a sua família era proprietária há gerações.

– Que horas são? – perguntou a sua secretária, Kristin.

Mitch olhou para o seu relógio e depois para a porta de entrada.

– É tarde. Está atrasada. Achava que me tinhas dito que a tua amiga era uma verdadeira profissional.

Kristin apoiou uma anca contra a secretária e cruzou os braços.

– Disse-te que era a resposta para todos os teus sonhos. Se tu interpretaste isso como «uma verdadeira profissional», quem sou eu para discutir?

Mitch ia protestar, mas renunciou ao recordar com quem estava a falar.

– Tens noção de que é a minha última entrevista, não tens? Ou escolhemos hoje mesmo um novo leiloeiro, ou será necessário suspender a apresentação preliminar da semana que vem.

Não precisava de acrescentar que, se a apresentação preliminar fosse cancelada, também seria necessário cancelar o leilão. E, em seguida, o negócio cairia. Todos no edifício o sabiam. Sabiam-no, receavam-no e, de algum modo, esperavam-no.

Imperturbável como sempre, Kristin sorriu.

– Não te preocupes, Mitch. É perfeita. Espera e verás.

Mitch semicerrou os olhos e tentou distrair-se, brincando com uma caneta antiga, com aspecto de já ter tido tempos melhores. Séculos melhores, de facto. Não entendia como as pessoas podiam gostar tanto de coleccionar relíquias do passado. O que o atraía era o futuro.

Voltou a deixar a caneta no seu sítio.

– E deixa de franzir o sobrolho – disse Kristin. – Apesar da forma injusta como os homens envelhecem melhor do que as mulheres, não tens de acelerar o processo.

– Já reparaste que só franzo o sobrolho quando estás aqui?

– Nunca. Precisas de uma massagem. Ou de uma semana de férias. Alguma vez foste acampar? A comunhão com a natureza pode ser muito relaxante. Não é? Nesse caso, o que precisas é de jantar com alguém que conseguir pronunciar uma frase inteira sem antepor «hum» a cada palavra. Os encontros frequentes com todo o tipo de mulheres envelhecem muito mais do que franzir o sobrolho. Li-o recentemente em algum sítio.

– Talvez sejas tu quem deveria estar à procura de um novo emprego – disse Mitch, com o tipo de sorriso carente de humor que normalmente fazia com que as suas assistentes corressem para se refugiarem atrás das suas secretárias.

Kristin limitou-se a pestanejar.

– E porque haveria de fazer algo do género?

Mitch ignorou-a e passou uma mão pela testa.

– Quando tenho a minha próxima reunião na cidade?

Kristin consultou a sua agenda e depois olhou para o seu chefe, com expressão inocente.

– Tens tempo suficiente. Relaxa.

Relaxar? Como se conseguisse relaxar. Já relaxara o suficiente durante os anos que tinha passado em Londres a criar novos mercados para as empresas Hanover, enquanto a galeria Hanover, aquela que outrora fora a jóia da coroa da sua família, o negócio a que os seus pais se tinham entregado antes de se reformarem, se afundava devido a uma gestão demasiado relaxada e antiquada.

Sentia o fracasso iminente daquele negócio institucional como um grande peso nos seus ombros já sobrecarregados. Mas agora que estava de volta, agora que já nada o prendia a Londres, agora que era o director-executivo das empresas Hanover, não podia relaxar enquanto uma coisa tão querida para os seus pais se afundava e morria.

O som do motor de um carro interrompeu o silêncio tenso e, quando olhou pela janela, Mitch viu que um Corvette cor-de-rosa parava no espaço que havia diante da galeria.

– Idiota! – murmurou. A Polícia Municipal andava muito atenta naquela zona da cidade e levá-lo-iam em menos de uma hora. Sabia-o por experiência própria. Acontecera-lhe duas vezes.

De repente, Kristin deu um gritinho e saiu a correr da galeria.

Foi até ao Corvette e inclinou-se tanto para cumprimentar a sua ocupante que os seus pés saíram do chão e Mitch teve de desviar o olhar para não ver se usava cinto de ligas.

Então, compreendeu. A condutora do carro devia ser Veronica Bing. A sua última entrevista. Já há algum tempo que Mitch decidira que Deus gostava de o castigar. E sabia porquê. Franziu ainda mais o sobrolho.

Respirou fundo. Entrevistaria a mulher, contrataria uma das outras três candidatas que já tinha entrevistado e gostaria de informar Kristin que o seu bónus de Natal consistiria numa embalagem de presunto.

Quando os pés de Kristin voltaram a tocar no chão, Mitch mexeu-se para conseguir ver melhor a suposta «resposta para todos os seus sonhos».

A resposta era alta, com o cabelo castanho-escuro e encaracolado, uns óculos ainda mais escuros que cobriam metade do seu rosto e uns lábios surpreendentemente carnudos e sensuais. Vestia uma t-shirt preta sem mangas que deixava a descoberto uns braços compridos e morenos, que, sem dúvida, tinham visto um sol diferente do de Melbourne durante aquele longo Inverno.

Sem se incomodar em abrir a porta do carro, a mulher saltou e as solas das suas botas soaram secamente sobre o asfalto. Eram pretas e chegavam-lhe até ao joelho. Com o par de calças de ganga mais justas que Mitch já tinha visto na sua vida encaixado nelas. Umas calças de ganga que marcavam o tipo de curvas que teria chamado a atenção de qualquer homem semivivo.

Mitch quis desviar o olhar. Ele estava, pelo menos, semivivo e, quando acordara naquela manhã, fizera-o sem a intenção de prestar atenção às mulheres e, menos ainda, à que podia estar prestes a contratar. Mas os seus olhos pareciam presos à criatura que se encontrava do outro lado do vidro.

Naquela manhã, acordara às cinco horas, como de costume, correra os seus cinco quilómetros habituais na passadeira que tinha no seu apartamento e tomara o seu pequeno-almoço baixo em calorias.

Normalmente, aquela rotina bastava para travar possíveis descargas de adrenalina a meio da manhã perante a visão de um rabo bonito dentro de umas calças de ganga. Culpou Kristin por causa de toda aquela conversa sobre a natureza, as massagens e os seus encontros com mulheres com habilidades linguísticas. Fizera-o sentir-se assim, pensar assim e tinha de se livrar da sua influência.

«O futuro do negócio está nas tuas mãos», recordou a si mesmo. «Este não é o momento mais adequado para te distraíres.» Também se consolou a pensar que Veronica Bing usava a roupa menos adequada que poderia imaginar-se para uma entrevista de trabalho e que, portanto, não podia ser o que ele ou o negócio precisavam para avançar. Nunca teria ouvido falar de fatos azul-escuros e meias beges?

Quando ouviu a porta a abrir-se, respirou fundo e olhou para o retrato respeitável do seu bisavô, Phineas Hanover, que estava pendurado atrás da secretária.

– Ajuda-me – murmurou, antes de se virar.

Então, ela entrou, trazendo consigo uma baforada de ar quente primaveril, enquanto Kristin tagarelava ao seu lado, como uma adolescente superexcitada.

Mitch sentiu que ficava sem fôlego quando viu a imagem que enfeitava a frente da t-shirt de Veronica. Uns lábios vermelhos brilhantes e enormes contornavam as curvas perfeitas dos seus seios. Pestanejou, respirou fundo e olhou para ela nos olhos. Então, descobriu que, sem os óculos, o seu rosto era… encantador. Não havia outra palavra para o descrever. Com todo aquele cabelo encaracolado e revolto que fazia com que parecesse que acabava de se levantar da cama, uns olhos escuros brilhantes e aquela pele morena, praticamente cintilava.

Mitch sentiu o fraco, mas evidente início de uma reacção química no seu interior, que se espalhou rapidamente por todo o seu corpo e fez com que sentisse cócegas nas palmas das mãos, e os cabelos da sua nuca se arrepiassem.

Quando, finalmente, Veronica virou o olhar para ele, preparou-se para o impacto.

O sorriso de Veronica fraquejou. Inclusive àquela distância, e com o sol atrás dela, Mitch notou-o. Então, ela olhou para ele de cima a baixo, desde o seu cabelo preto, passando pelo seu fato conservador, até aos seus sapatos pretos imaculados, para depois voltar a parar nos seus olhos. A pele de Mitch arrepiou-se como se, em vez do olhar, Veronica acabasse de deslizar um dedo pelo seu corpo nu.

O que era uma tolice. Todo aquele assunto era demasiado ridículo. Ele era um homem experiente. Com uma experiência muito mais ampla daquela que poderia ter admitido perante uma companhia delicada. E, segundo a sua experiência, aquele tipo de reacção física primária e instantânea perante uma mulher já não era própria dele. O facto de ter cultivado a sua indiferença, até ao ponto de a ter transformado numa forma de arte em si mesma, não vinha ao caso.

Passou uma mão pela nuca e tentou recordar a última vez que tinha comido.

Viu de soslaio que Veronica batia no ombro de Kristin e lhe perguntava alguma coisa que fez com que ambas olhassem na sua direcção.

– Oh! – Kristin abanou a cabeça. – Tinha-me esquecido por completo dele – murmurou.

Mitch dedicou-lhe um olhar que fez com que mordesse o lábio. Depois, dedicou a sua atenção à recém-chegada, enquanto recordava mais uma vez ao seu «eu» profissional o quanto precisava de uma leiloeira provisória para salvar o negócio da família. Também informou o seu «eu» pessoal de que aquela intrusa era a antítese das loiras aristocráticas e serenas que costumavam chamar a sua atenção. Entretanto, no fundo da sua cabeça, a voz de Kristin repetia que aquela era a resposta para todos os seus sonhos.

– Mitch Hanover – disse, enquanto avançava para ela, com a mão estendida. – Deves ser Veronica Bing.

– O que me denunciou? – perguntou ela, enquanto apertava a sua mão, com firmeza. Mas, ao mesmo tempo, fez uma pequena reverência, acompanhada de uma respeitosa inclinação de cabeça.

Mitch retirou a mão, com lentidão suficiente para não despertar suspeitas e rapidez suficiente para evitar qualquer lembrança posterior do contacto.

– As outras três pessoas que entrevistei não puseram objecções quando lhes ofereci bilhetes de avião de ida e volta para virem cá – disse Mitch, enquanto olhava significativamente para o carro ostentoso de Veronica.

Ela arqueou um sobrolho e humedeceu o lábio inferior com a língua.

– Aparentemente, o meu medo irracional de andar de avião supôs uma vantagem em relação aos meus adversários. Sabia que, um dia, me serviria de alguma coisa.

A sua boca curvou-se num leve sorriso e Mitch teve de se conter para não fazer o mesmo.

– Tenho a certeza de que Kristin te terá informado de como é importante para este negócio o papel do leiloeiro. Na próxima semana, entramos em acção, não temos leiloeiro e metade do pessoal está com gripe – embora Mitch suspeitasse que tinham deduzido, na maioria dos casos com razão, que, se voltassem seriam despedidos imediatamente. – O futuro do negócio depende de o lugar ser ocupado pela pessoa certa.

Chegados a esse ponto, os outros três entrevistados tinham-se mostrado respectivamente pacatos, displicentes e aterrorizados. Veronica limitou-se a sorrir.

– Acho que precisas de mim ainda mais do que achas, Mitch Hanover.

Mitch amaldiçoou interiormente o último e inepto leiloeiro que tinha levado o negócio à beira da ruína, com a sua atitude indolente e o seu desconhecimento do mercado actual, e os seus pais por terem sido tão bons com ele que não podia decepcioná-los.

– Porque não dás uma olhadela à galeria? – perguntou, enquanto assinalava em direcção ao escritório das traseiras. – Eu vou já ter contigo.

– Como queira, chefe – Veronica afastou-se pelo tapete cinzento do hall amplo, subiu umas escadas de madeira e desapareceu por trás da parede de tijolos que separava a galeria em si da vista da rua.

– O que te parece? Não te tinha dito que era fantástica? – perguntou Kristin.

– Ainda não sei o que me parece – murmurou Mitch.

 

 

Veronica demorou um pouco a tentar controlar o tremor dos seus joelhos.

– Até ao momento, está a correr bem – murmurou para si. – Estás a portar-te bem. Queixo para cima, ombros direitos, olha-o directamente nos olhos e aflige-o com a tua segurança.

Segurança? Pois! Quase não conseguia recordar o que significava aquela palavra. Uma semana antes, a possibilidade de conseguir aquele trabalho tinha-lhe parecido fantástica, sobretudo, perante um atendedor de chamadas cheio de mensagens deixadas por um homem que não parecia entender a palavra «não».

Mas, uma vez ali, naquele edifício antigo, carregado de lembranças, sentia-se mais do que um pouco intimidada.

O papel cinzento das paredes estava debotado, o lustre enorme pendurado na entrada tinha aspecto de não trabalhar há muito tempo, as molduras douradas dos retratos da aristocracia, supostamente consideradas obras de arte, estavam tão longe do seu gosto e experiência de vida que pareciam totalmente alheios.

Além disso, havia Kristin, a rapariga que outrora usara mais piercings do que ela tinha malas, que agora vestia um fato bege elegante e usava o cabelo preto comprido e caído, enquanto ela se apresentara de calças de ganga, botas e uma t-shirt, a roupa que usara habitualmente no seu último emprego.

Reprimiu um gemido enquanto se imaginava a atirar-se sobre o capô do seu querido Corvette, enquanto uns valentões contratados pelo banco o levavam.

Olhou por cima do seu ombro. Fosse qual fosse a situação em que se encontrava, a resposta para o seu futuro estava nas mãos firmes e de dedos compridos de Mitch Hanover.